O barulho da porta abrindo foi suficiente para acordá-lo. Para tirá-lo do meio daquelas lembranças.
Uma mulher de branco entrou no quarto com a seringa na mão, provavelmente para dar os medicamentos. Não era a que estava responsável por aquela noite. Na verdade não a havia visto no hospital ainda. Ela era mais idosa. Devia ter uns 60 anos. Mas de alguma forma... parecia conhecê-la.
- Já está na hora? Pelo que a outra enfermeira disse, ainda faltam... 5min.
- Sim. O doutor achou melhor dar essa dose também. – injetou o remédio. - Ela ainda não deu nenhum sinal de... melhoras? – disse a enfermeira, sentida.
- Não, ainda não. Ainda está desacordada – foi apenas o que consegui dizer.
Caminhou até o meu lado.
- Nós estamos fazendo o possível. Ela vai ficar bem. – A simpática enfermeira colocou a mão em meu ombro, e senti a lágrimas escorrendo por meu rosto. – Papai Noel ainda vai te dar mais uma vez isso de natal.
Voltou ao lado dela para checar tudo e aplicar um remédio com um aspecto... vermelho me deixando mais uma vez sozinho. Sozinho ao lado da mulher que eu amava. A mulher que eu conheci na adolescência, e com quem eu passei os melhores anos da minha vida. A minha esposa.
Mas aquela mulher havia dito algo certo, e eu simplesmente não tinha mais o que fazer. Fechei os olhos.
“Acredito que seja ridículo e provavelmente infantil estar aqui mentalizando um pedido de Natal. Mas quando eu tinha 16 anos, numa brincadeira de família, eu escrevi o que eu queria, coloquei numa caixinha, e ganhei o meu presente. Dez anos, 10 natais ao lado da pessoa que eu mais amo nesse mundo. Ao lado da garota que eu realmente amava, amo e sempre vou amar. E agora... – eu sentia as lágrimas escorrendo e pingando na minha calça. Coloquei as mãos no rosto - ... prestas a perdê-la. Eu peço por favor, não me deixa ficar sem ela. Não me deixa ficar sem a minha Janie. Ela que eu amei de uma forma que eu achei ser impossível. Eu preciso... preciso passar esse natal ao lado dela. Esse e mais muitos outros. Por favor, eu...”
Senti aquela mesma mão em meu ombro, e tirou-me de meus pensamentos.
- Senhor já fiz o meu trabalho. Fique calmo, seu... presente de natal logo vai chegar.
Ela caminhou até a porta e me olhou. Aqueles olhos dóceis, simpáticos.
Segurei as mãos de Janie, e lembrei-me de quando ela disse: “é engraçado como o espaço entre os meus dedos são bem onde os seus se encaixam perfeitamente, né? rs.”
Olhei para ela.
- Eu lembro quando eu era mais novo. Naquele Natal, lembra? Eu... eu lembro que eu fui pra casa pensando em você. Pensando em como seria perfeito ter você ao meu lado. Lembro que, naquela noite eu sonhei com o futuro. Quer dizer, como eu queria fosse meu futuro, ao seu lado. Como seria poder acordar ao seu lado e a primeira coisa que eu veria seria o seu rosto perfeito, sua pele de porcelana. Como seria acordar e primeira coisa que eu ouviria seria sua voz. Sentir seu cheiro, sentir você ao meu lado.
Entrelacei meus dedos no dela, e desejei com todas as minhas forças que ela ficasse bem.
Ouvi a porta se abri e percebi que a enfermeira já havia saído. Mas em seu lugar veio a doutora acompanhada pela enfermeira que estava responsável por Janie.
- Vim ver se ela apresenta alguma melhora.
- Ela está na mesma, mas aquela enfermeira que acabou de sair já deu o remédio à ela. Obrigado! – disse à mulher.
- Mas que enfermeira senhor? Não... passou ninguém por nós. E apenas ela está responsável pela sua esposa.
Senti um aperto na minha mão. A mão de Janie estava mexendo. Vi seu rosto ganhar cor e seu olhos começarem a se abrir.
- Janie? Janie meu amor! Sou eu. Eu estou aqui.
A doutora se apressou e começou a avaliar Janie.
Uma hora se passou e Janie já estava praticamente nova. Trouxeram algo para que ela comesse. Eu só conseguia ficar ali, segurando sua mãe e olhando-a. Olhando a mulher perfeita que eu tinha ao meu lado.
- Doutora, tem alguma chance daquele novo medicamente ter alguma relação com essa mudança?
- Medicamento? Mas... que medicamento?
- Como eu havia dito, naquela hora que a senhora entrou uma enfermeira havia acabado de sair. Ela saiu e a senhora entrou pela porta. Ela aplicou um líquido... vermelho na veia dela.
- Enfermeira? Mas não passou ninguém por mim, senhor.
Olhei para a porta, e me lembrei de algo. Lembrei de onde eu conhecia aquela senhora.
Naquele natal, a 10 anos atrás. O Natal que havia mudado tudo.
Eu havia acabado de sair da casa da Janie. Estava indo pegar um taxi quando uma moça esbarrou em mim, e deixou suas coisas caírem no chão. A mesma senhora que já havia esbarrado em mim mais cedo. A ajudei a pegar tudo, e me desculpei. Ela pediu pra que eu a ajudasse com o peso. Ela morava logo ao lado. Naquele natal ela me disse: “Tenha certeza que Papai Noel vai te dar o que você quer de Natal.”
Eu havia acabado de sair da casa da Janie. Estava indo pegar um taxi quando uma moça esbarrou em mim, e deixou suas coisas caírem no chão. A mesma senhora que já havia esbarrado em mim mais cedo. A ajudei a pegar tudo, e me desculpei. Ela pediu pra que eu a ajudasse com o peso. Ela morava logo ao lado. Naquele natal ela me disse: “Tenha certeza que Papai Noel vai te dar o que você quer de Natal.”
Senti aos mãos de Janie pegarem a minha. Ela me olhava. Aqueles lindos olhos castanhos onde eu me perdia todas as vezes que olhava.
- Luke, meu amor, está tudo bem?
- Sim. É só que... acabei de perceber que ganhei mais uma vez você de presente.