26 de dez. de 2010

Christmas Tale II

O barulho da porta abrindo foi suficiente para acordá-lo. Para tirá-lo do meio daquelas lembranças.
Uma mulher de branco entrou no quarto com a seringa na mão, provavelmente para dar os medicamentos. Não era a que estava responsável por aquela noite. Na verdade não a havia visto no hospital ainda. Ela era mais idosa. Devia ter uns 60 anos. Mas de alguma forma... parecia conhecê-la.
- Já está na hora? Pelo que a outra enfermeira disse, ainda faltam... 5min.
- Sim. O doutor achou melhor dar essa dose também. – injetou o remédio. - Ela ainda não deu nenhum sinal de... melhoras? – disse a enfermeira, sentida.
- Não, ainda não. Ainda está desacordada – foi apenas o que consegui dizer.
Caminhou até o meu lado.
- Nós estamos fazendo o possível. Ela vai ficar bem. – A simpática enfermeira colocou a mão em meu ombro, e senti a lágrimas escorrendo por meu rosto. – Papai Noel ainda vai te dar mais uma vez isso de natal.
Voltou ao lado dela para checar tudo e aplicar um remédio com um aspecto... vermelho me deixando mais uma vez sozinho. Sozinho ao lado da mulher que eu amava. A mulher que eu conheci na adolescência, e com quem eu passei os melhores anos da minha vida. A minha esposa.
Mas aquela mulher havia dito algo certo, e eu simplesmente não tinha mais o que fazer. Fechei os olhos.
“Acredito que seja ridículo e provavelmente infantil estar aqui mentalizando um pedido de Natal. Mas quando eu tinha 16 anos, numa brincadeira de família, eu escrevi o que eu queria, coloquei numa caixinha, e ganhei o meu presente. Dez anos, 10 natais ao lado da pessoa que eu mais amo nesse mundo. Ao lado da garota que eu realmente amava, amo e sempre vou amar. E agora... – eu sentia as lágrimas escorrendo e pingando na minha calça. Coloquei as mãos no rosto - ... prestas a perdê-la. Eu peço por favor, não me deixa ficar sem ela. Não me deixa ficar sem a minha Janie. Ela que eu amei de uma forma que eu achei ser impossível. Eu preciso... preciso passar esse natal ao lado dela. Esse e mais muitos outros. Por favor, eu...”
Senti aquela mesma mão em meu ombro, e tirou-me de meus pensamentos.
- Senhor já fiz o meu trabalho. Fique calmo, seu... presente de natal logo vai chegar.
Ela caminhou até a porta e me olhou. Aqueles olhos dóceis, simpáticos.
Segurei as mãos de Janie, e lembrei-me de quando ela disse: “é engraçado como o espaço entre os meus dedos são bem onde os seus se encaixam perfeitamente, né? rs.”
Olhei para ela.
- Eu lembro quando eu era mais novo. Naquele Natal, lembra? Eu... eu lembro que eu fui pra casa pensando em você. Pensando em como seria perfeito ter você ao meu lado. Lembro que, naquela noite eu sonhei com o futuro. Quer dizer, como eu queria fosse meu futuro, ao seu lado. Como seria poder acordar ao seu lado e a primeira coisa que eu veria seria o seu rosto perfeito, sua pele de porcelana. Como seria acordar e primeira coisa que eu ouviria seria sua voz. Sentir seu cheiro, sentir você ao meu lado.
Entrelacei meus dedos no dela, e desejei com todas as minhas forças que ela ficasse bem.
Ouvi a porta se abri e percebi que a enfermeira já havia saído. Mas em seu lugar veio a doutora acompanhada pela enfermeira que estava responsável por Janie.
- Vim ver se ela apresenta alguma melhora.
- Ela está na mesma, mas aquela enfermeira que acabou de sair já deu o remédio à ela. Obrigado! – disse à mulher.
- Mas que enfermeira senhor? Não... passou ninguém por nós. E apenas ela está responsável pela sua esposa.
Senti um aperto na minha mão. A mão de Janie estava mexendo. Vi seu rosto ganhar cor e seu olhos começarem a se abrir.
- Janie? Janie meu amor! Sou eu. Eu estou aqui.
A doutora se apressou e começou a avaliar Janie.
Uma hora se passou e Janie já estava praticamente nova. Trouxeram algo para que ela comesse. Eu só conseguia ficar ali, segurando sua mãe e olhando-a. Olhando a mulher perfeita que eu tinha ao meu lado.
- Doutora, tem alguma chance daquele novo medicamente ter alguma relação com essa mudança?
- Medicamento? Mas... que medicamento?
- Como eu havia dito, naquela hora que a senhora entrou uma enfermeira havia acabado de sair. Ela saiu e a senhora entrou pela porta. Ela aplicou um líquido... vermelho na veia dela.
- Enfermeira? Mas não passou ninguém por mim, senhor.
Olhei para a porta, e me lembrei de algo. Lembrei de onde eu conhecia aquela senhora.
Naquele natal, a 10 anos atrás. O Natal que havia mudado tudo.
Eu havia acabado de sair da casa da Janie. Estava indo pegar um taxi quando uma moça esbarrou em mim, e deixou suas coisas caírem no chão. A mesma senhora que já havia esbarrado em mim mais cedo. A ajudei a pegar tudo, e me desculpei. Ela pediu pra que eu a ajudasse com o peso. Ela morava logo ao lado. Naquele natal ela me disse: “Tenha certeza que Papai Noel vai te dar o que você quer de Natal.”
Senti aos mãos de Janie pegarem a minha. Ela me olhava. Aqueles lindos olhos castanhos onde eu me perdia todas as vezes que olhava.
- Luke, meu amor, está tudo bem?
- Sim. É só que... acabei de perceber que ganhei mais uma vez você de presente.

Christmas Tale

Natal. O Natal nunca foi uma das suas datas festivas favoritas. Na verdade, Luke nunca ligou muito. Ganhar presentes é legal, juntar toda a família é muito bom mas é sinceramente uma data nada... especial. Mas a sua visão de natal mudou, em 2010. O seu décimo quinto natal.
24 de Dezembro de 2010 – 23:50
            Essa era primeira vez que ele estava realmente ansioso para que chegasse a meia-noite. Ela pediu para que ele ligasse no primeiro segundo do dia 25, e ainda não havia ouvido sua voz o dia todo. Ouvir um ‘Feliz Natal’ vindo dela ia ser o melhor presente. Ou o segundo melhor.
00:01
            Ganhou seu tão esperado presente de Natal. Ela atendeu o telefone super animada.
- Feliz Nataaal !
 - Feliz natal meu amor. Como está ai na sua avó?
- Mais animado impossível né – ela riu – To rindo demais aqui. E você?
- Tá legal aqui também. Mas eu queria poder... estar ai com você.
- Então Luke, era sobre isso que eu queria falar. – ela deu uma pausa – Vem pra cá amanhã.
- Pra sua avó?
- É! Passa o dia 25 comigo.
25 de Dezembro de 2010 – 12:20
- Senhor Luke, onde você está?
- Janie, eu já estou chegando. Em... 10 minutos eu to ai.
- Vem logo. Já está atrasado. Como sempre né.
Ele desligou. Vinte minutos depois ele já estava descendo do taxi. Ao sair esbarrou numa senhora.
- Me desculpe. Deixe-me ajudá-la.
Recolheu as coisas que haviam caído no chão. Por acaso ela era vizinha de Janie. Ajudou-a a carregar as compras até sua casa.
- Muito obrigado rapaz. Você é muito gentil.
- Nada senhora. A culpa foi minha.
- Papai Noel já entregou seu presente?
Luke riu.
- Já, já sim. – olhou o relógio, já eram 12:35. – Senhora, estou atrasado. Desculpa-me de novo. Feliz Natal.
- Que nada, está tudo bem. Feliz natal para você também.
Luke atravessou a rua, apertou a campainha. Logo o portão estava se abrindo, e uma garota de cabelos cacheados pulou em seu pescoço.
- Até que enfim. Só você pra melhorar o meu dia.
Luke percebeu então que ela estava chorando.
- O que houve? Aconteceu alguma coisa?                                                                          
Ela não respondeu. Continuou ali, abraçado com ele. Chorando enquanto ele acalmava-a.
Eles entraram, e Luke falou com todos. Subiram para o terraço.
- Pronto, agora fala. O que aconteceu?
Janie contou toda a história, e era exatamente o que ele imaginava. Problemas familiares. Eles ficaram conversando por muito tempo ali no terraço.
Janie acabou de contar, mas eles continuaram ali. Sentados juntos esperando o tempo passar. Aquele terraço era especial, ao menos para Luke: Janie havia o levado lá da primeira vez que ele fora visitá-la. E foi lá que tudo começou, quer dizer, ou quase isso. A amizade deles cresceu muito depois daquele dia.
12:50
- Você não via mesmo passar o dia de Natal triste assim e... eu já sei como te animar – Luke levantou e pegou seu celular.  – Vamos, “Say Goodbye.”
Luke colocou a música que eles queriam dançar juntos há muito tempo. Rapidamente ele passou os passos pra ela e eles ficaram ali, no terraço dançando.
Ele percebeu que Janie estava mais feliz. Tinha um sorriso que não saia de seu rosto.
- Agora, vamos descer e dançar pra todo mundo.
- O que? Na Frente de todo mundo. NÃO, NÃO!
- Ahh vamos sim. E agora
Desceram e pediram para que todos se juntassem no quintal. Janie pegou o som, e preparam-se para dançar.
Todos riram, e divertiram-se com a dança. Eles estavam magníficos dançando juntos. A música era perfeita. Aquele de natal então, estava perfeito.
Comeram, riram, ficaram com a família.
15:30
- Está na hora dos pedidos. Escrevam nos papeizinhos e coloquem dentro da caixa. E depois esperem que Papai Noel realize-os. – anunciou sua mãe.
- Hora dos pedidos? Mas... os pedidos deveriam ter sido feitos ontem, não? – perguntou Luke.
- É, mas... é uma coisa que nós sempre fazemos. Mamãe sempre diz que Papai Noel pode passar a qualquer momento.
- Mas eu não... acredito mais nele. – Luke riu.
- É, eu sei. Mas é só uma brincadeira – ela sorriu para ele – Vamos!
Os pedidos foram feitos e colocados na caixa. Luke pediu o que ele mais queria de Natal.
19:00.
- Você tem mesmo que ir?
- Infelizmente sim. Mas o dia foi perfeito. Valeu por me chamar.
Ele a abraçou forte. Sentiu seu perfume e seu coração acelerou. Desejou não ter que soltá-la nunca mais. Eles se separam e Luke segurou sua. Ela olhou para suas mãos, juntas.
Sua outra mão tocou o rosto de Janie, enquanto seus olhos fitavam-na com ternura.
A mão dele deslizou vagarosamente para sua nuca, enquanto ele se aproximava. Janie percebeu que seus olhos mudaram. O brilho era maior que. Era um brilho de felicidade. De alegria. De desejo.
Eles se aproximaram mais, suas bocas quase se tocando. Quando eles estavam prestes a se beijar, Janie virou o rosto e seus lábios tocaram seu rosto.
- O que você pediu? Você sabe, na... brincadeira.
- Não posso falar. Ou ele não vai se realizar. Mas de qualquer forma, acho que... não vai acontecer.
Luke beijou-a de novo no rosto. Abraçou-a e se distanciou. Fez sinal para um taxi que estava vindo. Janie observava-o entrar no taxi.
19:20
Ele está no carro, perdido em pensamentos. Pensando em tudo que havia acontecido naquele dia, e no que havia acontecido no ultimo verão, quando seu celular vibrou.
Ele pega o celular. É uma mensagem, de Janie. Abre e vê:
“Desculpe. Eu te amo.”

10 anos depois... 25 de dezembro.
Ouve então uma voz em sua cabeça. Uma voz conhecida.
- Luke, meu amor, acorde! – abre os olhos e vê uma linda mulher à sua frente – Já está tarde.
Ele vê aquela linda mulher de cachos negros, e olhos castanhos observando-o, e levanta de sua cama.
- Já é manhã de natal e nós ainda estamos nesse quarto. Vamos. – ela rodopia até a janela – Nós estamos nesse lugar perfeito. Não vou ficar presa aqui. – ela riu.
- E eu estou esperando meu novo pingente – sacudiu braço com a pulseira de nove pingentes. – e esse ano será de Paris!
Ele levanta da cama ainda de Box, caminha até a porta do banheiro. Vira-se e admira a mulher em frente à janela. Sua esposa, que parecia um anjo ainda só de lingerie preta e roupão de seda.
Ela vira para ele e observa-o, da mesma forma que ele olhava para ela.
- Se você não se apressar, eu juro que saiu sozinha. – abriu um sorriso maléfico.
- Tudo bem, tudo bem. Estou indo para banho.
Luke sorri e abre a porta do banheiro.
- Psiu! O dia com você vai ser maravilhoso, Perfeito! – ela abre um sorriso – Je t’aime! – pronuncia em francês impecável
- Eu também. – ele sente o olhar dela, como uma alerta de como ele deveria completar aquela frase. – Também te amo, minha Janie.



FINAIL ALTERNATIVO:
- Luke, meu amor acorde! – percebe que está no chão, e vê diversas pessoas em volta dele, mas só distingui a linda mulher de olhos castanhos e cabelo preto.
- Podemos prosseguir? – diz um senhor que Luke não reconhece.
- Podemos, podemos sim – responde ele.
Levanta-se. Dá a mão a linda mulher, e dá alguns passos.
- Você a aceita como sua legítima esposa?
Luke olha para ela. Sente seu coração palpitar, e diz. Diz aquela pequena frase que mudaria sua vida dali em diante
- Sim! É claro que aceito, minha Janie.